
"Deus
eu faço parte do teu gado:
esse que confinas em fogo e paixão,
e às vezes em terrível liberdade.
Sou, como todos, marcada nesse flanco
pelo susto da beleza, pelo terror da perda
e pela funda chaga dessa arte
em que pretendo segurar o mundo.
No fundo, Deus,
eu faço parte da manada
que corre para o impossível,
vasto povo desencontrado
a quem tanges, ignoras
ou contornas com teu olhar absorto.
Deus,
eu faço parte do teu gado
estranhamente humano,
marcado para correr amar morrer
querendo colo, explicação, perdão
e permanência."
(Lya Luft, Em outras palavras, 2006)