(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)
“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.
Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”
(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)
terça-feira, 2 de abril de 2013
quarta-feira, 20 de março de 2013
Oração - Santo Agostinho
“A morte não é
nada.
Apenas passei a outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que
fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me
deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um
triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir
juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se
pronuncie em casa como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase,
sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou:
continua sendo o que era.
O cordão da união não se quebrou.
Por que eu estaria fora de teus pensamentos, apenas porque estou fora
de tua vista?
Não estou longe, somente estou do outro lado do
caminho.
Já verás, tudo está bem...
Redescobrirás o meu
coração, e nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas
lágrimas e, se me amas, não chores mais.”
in memoriam
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Cântico Negro - José Régio
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
(José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira)
domingo, 6 de janeiro de 2013
As vogais – Arthur Rimbaud
"A, negro, E, branco, I,
rubro, U, verde, O, turquesinho.
vossa origem latente
hei-de cantar em breve.
O enxame que a zumbir
de um pântano se eleve,
A, teu negro veludo
esmalta de ouro fino;
E, brancura ideal das
tendas cor de neve,
umbelas de alvos reis,
lanças de gelo alpino;
I, sangue em jorros, I,
púrpura em chamas, hino
de cólera que, a rir,
num lábio em flor se atreve;
U, círculo do mar nos
glaucos horizontes,
verdes pastos sem fim,
rugas sulcando as fontes
dos que buscam da
ciência os íntimos refolhos;
O, fanfarras, clarins,
trons de vitórias, brados;
O, silêncios azuis de
anjos e sóis povoados,
O, clarão vesperal,
violáceo, dos seus olhos!"
(Trad. Augusto de
Campos)
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Modinha – Adélia Prado
"Quando eu fico aguda de
saudade eu viro só ouvido.
Encosto ele no ar, na
terra, no canto das paredes,
pra escutar nefando, a
palavra nefando.
Um homem que já morreu
cantava “a flor mimosa
desbotar não pode, nem
mesmo o tempo
de um poder nefando”
– mais dolorido canta
quem não é cantor.
A alma dele zoando de
tão grave, tocável
como o ar de sua
garganta vibrando.
No juízo final, se
Deus permitisse,
eu acordava um morto
com este canto,
mais que o anjo com sua
trombeta."
(In: Bagagem.
Rio de Janeiro: Record, 2006, p.129)
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Sobre o Tempo e a EternaIdade - Rubem Alves
“É assim que ficam
os meus olhos, é assim que fica o meu mundo, quando a saudade se
aconchega no meu colo, quando a velhice brinca comigo... Os olhos
normais veem as ruas, os muros, os jardins, do jeito mesmo como eles
são, do jeito mesmo como apareceriam se deles se tirasse uma
fotografia. Já os olhos que a saudade encantou ficam dotados de
estranhos poderes mágicos: eles veem as ausências, o que não está
lá, mas que o coração deseja.”
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Hoje canções - Nana Caymmi
"Gosto de ouvir
O mar me dizer
Coisas que eu sonhei
Sem saber
Navegar o tempo é sempre assim
Começa pelo fim
Tantas paixões
No sol do verão
Hoje canções
No meu coração
A saudade traz você pra mim
E a espera não é ruim
Pois tem sol
E um mar
Da cor do céu
Do amor
Gosto de ver
O sol despertar
Outros verões
No seu coração
Navegar a vida é se entregar ao sonho
Longo, breve
Louco, leve
Mas seu"
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