(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)


“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho
da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”

(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)


sábado, 12 de outubro de 2013

A Fonte - Renato Russo






"Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além, não bebo dessa água
Chego ao lago da memória 
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
'Sou filho da Terra e do Céu!'
Dai-me de beber que tenho uma sede sem fim!
Olhe nos meus olhos
Sou o homem-tocha
Me tira essa vergonha
Me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio
Me livra desse medo
Olhe nos meus olhos
Sou o homem-tocha
E esta é uma canção de amor..."

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

É preciso estar sempre embriagado - Baudelaire






"É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: 'É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira'."

sábado, 31 de agosto de 2013

Lá fora, a noite – Marina Colasanti



“É quando a família dorme
- Inertes as mãos nas dobras dos lençóis
pesados os corpos sob a viva mortalha -
que a mulher se exerce.
Na casa quieta
onde ninguém lhe cobra
ninguém lhe exige
ninguém lhe pede
nada
caminha enfim rainha
nos cômodos vazios
demora-se no escuro.
E descalços os pés
aberta a blusa
pode entregar-se
plácida
ao silêncio.”

domingo, 21 de julho de 2013

Mergulho - Roseana Murray





"Para encontrar o amor
há que mergulhar o corpo
na tinta dos sonhos,
atravessar o canto das baleias
como se fosse uma ponte,
adivinhar a rota dos que sempre
partiram com meia dúzia
de panos e pertences,em busca
de uma água escondida.

Para encontrar o amor
é preciso lavar as mãos
com o fogo das estrelas
e ao entardecer tocar a harpa
do arco-íris."

domingo, 7 de julho de 2013

Poema LVII - Emily Dickinson




"Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.


Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.


É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal."


(Tradução de Manuel Bandeira)

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"Some keep the Sabbath going to Church –

I keep it, staying at Home –

With a Bobolink for a Chorister –

And an Orchard, for a Dome –


Some keep the Sabbath in Surplice –

I, just wear my Wings –

And instead of tolling the Bell, for Church,

Our little Sexton – sings.


God preaches, a noted Clergyman –

And the sermon is never long,

So instead of getting to Heaven, at last –

I’m going, all along."
(In: Complete Poems, 1924. Part Two: Nature)

sábado, 1 de junho de 2013

Garça triste - Antônio Frederico de Castro Alves



"Eu sou como a garça triste
Que mora à beira do rio,
As orvalhadas da noite
Me fazem tremer de frio.

Me fazem tremer de frio,
Como os juncos da lagoa;
Feliz da araponga errante
Que é livre e que livre voa.

Que é livre e que livre voa
Para as bandas do seu ninho,
E nas braúnas à tarde
Canta longe do caminho.

Canta longe do caminho.
Por onde o vaqueiro trilha,
Se quer descansar as asas
Tem a palmeira, a baunilha.

Tem a palmeira, a baunilha.
Tem o brejo, a lavadeira,
Tem as campinas, as flores,
Tem a relva, a trepadeira.

Tem a relva, a trepadeira.
Todas têm os seus amores,
Eu não tenho mãe, nem filhos
Nem irmãos, nem lar, nem flores."

domingo, 19 de maio de 2013

Memória - Drummond



”Amar o perdido
deixa confundido este coração.
Nada pode o ouvido
contra o sem sentido
apelo do não.
As coisas tangíveis tornaram-se
insensíveis à palma da mão.
Mas as coisas findas
muito mais que lindas
essas ficarão.”