(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)


“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho
da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”

(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)


sábado, 31 de agosto de 2013

Lá fora, a noite – Marina Colasanti



“É quando a família dorme
- Inertes as mãos nas dobras dos lençóis
pesados os corpos sob a viva mortalha -
que a mulher se exerce.
Na casa quieta
onde ninguém lhe cobra
ninguém lhe exige
ninguém lhe pede
nada
caminha enfim rainha
nos cômodos vazios
demora-se no escuro.
E descalços os pés
aberta a blusa
pode entregar-se
plácida
ao silêncio.”

domingo, 21 de julho de 2013

Mergulho - Roseana Murray





"Para encontrar o amor
há que mergulhar o corpo
na tinta dos sonhos,
atravessar o canto das baleias
como se fosse uma ponte,
adivinhar a rota dos que sempre
partiram com meia dúzia
de panos e pertences,em busca
de uma água escondida.

Para encontrar o amor
é preciso lavar as mãos
com o fogo das estrelas
e ao entardecer tocar a harpa
do arco-íris."

domingo, 7 de julho de 2013

Poema LVII - Emily Dickinson




"Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.


Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.


É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal."


(Tradução de Manuel Bandeira)

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"Some keep the Sabbath going to Church –

I keep it, staying at Home –

With a Bobolink for a Chorister –

And an Orchard, for a Dome –


Some keep the Sabbath in Surplice –

I, just wear my Wings –

And instead of tolling the Bell, for Church,

Our little Sexton – sings.


God preaches, a noted Clergyman –

And the sermon is never long,

So instead of getting to Heaven, at last –

I’m going, all along."
(In: Complete Poems, 1924. Part Two: Nature)

sábado, 1 de junho de 2013

Garça triste - Antônio Frederico de Castro Alves



"Eu sou como a garça triste
Que mora à beira do rio,
As orvalhadas da noite
Me fazem tremer de frio.

Me fazem tremer de frio,
Como os juncos da lagoa;
Feliz da araponga errante
Que é livre e que livre voa.

Que é livre e que livre voa
Para as bandas do seu ninho,
E nas braúnas à tarde
Canta longe do caminho.

Canta longe do caminho.
Por onde o vaqueiro trilha,
Se quer descansar as asas
Tem a palmeira, a baunilha.

Tem a palmeira, a baunilha.
Tem o brejo, a lavadeira,
Tem as campinas, as flores,
Tem a relva, a trepadeira.

Tem a relva, a trepadeira.
Todas têm os seus amores,
Eu não tenho mãe, nem filhos
Nem irmãos, nem lar, nem flores."

domingo, 19 de maio de 2013

Memória - Drummond



”Amar o perdido
deixa confundido este coração.
Nada pode o ouvido
contra o sem sentido
apelo do não.
As coisas tangíveis tornaram-se
insensíveis à palma da mão.
Mas as coisas findas
muito mais que lindas
essas ficarão.”

terça-feira, 2 de abril de 2013

Escrevestes meu nome - Hilda Hilst






"Sobre a água?
A fogo, na alma
Desenhei o teu

Grafismo iluminado
Imantado e novo

Teu nome e o meu

Novo
Porque no nunca se viu
Nome tão pertencido.
Antigo porque há milênios
Se entrelaçam justos
No infinito.

E raro
Porque tingido de um mosaico vivo
De danação e amor.

Teu nome.
Irmão do meu"

quarta-feira, 20 de março de 2013

Oração - Santo Agostinho



“A morte não é nada.
Apenas passei a outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou: continua sendo o que era.
O cordão da união não se quebrou.
Por que eu estaria fora de teus pensamentos, apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe, somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem...
Redescobrirás o meu coração, e nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e, se me amas, não chores mais.”


in memoriam