(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)


“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho
da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”

(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)


domingo, 7 de julho de 2013

Poema LVII - Emily Dickinson




"Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.


Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.


É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal."


(Tradução de Manuel Bandeira)

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"Some keep the Sabbath going to Church –

I keep it, staying at Home –

With a Bobolink for a Chorister –

And an Orchard, for a Dome –


Some keep the Sabbath in Surplice –

I, just wear my Wings –

And instead of tolling the Bell, for Church,

Our little Sexton – sings.


God preaches, a noted Clergyman –

And the sermon is never long,

So instead of getting to Heaven, at last –

I’m going, all along."
(In: Complete Poems, 1924. Part Two: Nature)

sábado, 1 de junho de 2013

Garça triste - Antônio Frederico de Castro Alves



"Eu sou como a garça triste
Que mora à beira do rio,
As orvalhadas da noite
Me fazem tremer de frio.

Me fazem tremer de frio,
Como os juncos da lagoa;
Feliz da araponga errante
Que é livre e que livre voa.

Que é livre e que livre voa
Para as bandas do seu ninho,
E nas braúnas à tarde
Canta longe do caminho.

Canta longe do caminho.
Por onde o vaqueiro trilha,
Se quer descansar as asas
Tem a palmeira, a baunilha.

Tem a palmeira, a baunilha.
Tem o brejo, a lavadeira,
Tem as campinas, as flores,
Tem a relva, a trepadeira.

Tem a relva, a trepadeira.
Todas têm os seus amores,
Eu não tenho mãe, nem filhos
Nem irmãos, nem lar, nem flores."

domingo, 19 de maio de 2013

Memória - Drummond



”Amar o perdido
deixa confundido este coração.
Nada pode o ouvido
contra o sem sentido
apelo do não.
As coisas tangíveis tornaram-se
insensíveis à palma da mão.
Mas as coisas findas
muito mais que lindas
essas ficarão.”

terça-feira, 2 de abril de 2013

Escrevestes meu nome - Hilda Hilst






"Sobre a água?
A fogo, na alma
Desenhei o teu

Grafismo iluminado
Imantado e novo

Teu nome e o meu

Novo
Porque no nunca se viu
Nome tão pertencido.
Antigo porque há milênios
Se entrelaçam justos
No infinito.

E raro
Porque tingido de um mosaico vivo
De danação e amor.

Teu nome.
Irmão do meu"

quarta-feira, 20 de março de 2013

Oração - Santo Agostinho



“A morte não é nada.
Apenas passei a outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou: continua sendo o que era.
O cordão da união não se quebrou.
Por que eu estaria fora de teus pensamentos, apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe, somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem...
Redescobrirás o meu coração, e nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e, se me amas, não chores mais.”


in memoriam

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Cântico Negro - José Régio




"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?



Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.



Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...



Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.



Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


(José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira)

domingo, 6 de janeiro de 2013

As vogais – Arthur Rimbaud




"A, negro, E, branco, I, rubro, U, verde, O, turquesinho.

vossa origem latente hei-de cantar em breve.

O enxame que a zumbir de um pântano se eleve,

A, teu negro veludo esmalta de ouro fino;

E, brancura ideal das tendas cor de neve,

umbelas de alvos reis, lanças de gelo alpino;

I, sangue em jorros, I, púrpura em chamas, hino

de cólera que, a rir, num lábio em flor se atreve;

U, círculo do mar nos glaucos horizontes,

verdes pastos sem fim, rugas sulcando as fontes

dos que buscam da ciência os íntimos refolhos;

O, fanfarras, clarins, trons de vitórias, brados;

O, silêncios azuis de anjos e sóis povoados,

O, clarão vesperal, violáceo, dos seus olhos!"

(Trad. Augusto de Campos)