(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)


“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho
da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”

(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Hoje canções - Nana Caymmi



"Gosto de ouvir
O mar me dizer
Coisas que eu sonhei
Sem saber
Navegar o tempo é sempre assim
Começa pelo fim

Tantas paixões
No sol do verão
Hoje canções
No meu coração
A saudade traz você pra mim
E a espera não é ruim

Pois tem sol
E um mar
Da cor do céu
Do amor

Gosto de ver
O sol despertar
Outros verões
No seu coração
Navegar a vida é se entregar ao sonho
Longo, breve
Louco, leve
Mas seu"

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Canto a mim mesmo - Walt Whitman

(Praia de Búzios - Natal - RN)


“Ser de uma forma qualquer
– o que é isso?
(Giramos e giramos, todos nós,
e sempre voltamos ao mesmo ponto.)
Se nada houvesse mais evoluído,
a ostra em sua calosa concha
deveria bastar.

Não tenho calosa a concha:
tenho instantâneos condutores
por mim todo,
esteja eu parado ou em movimento,
e eles apreendem todas as coisas
e sem dano as conduzem
através do meu ser.

Eu simplesmente me animo e tateio,
sinto com os dedos e fico feliz:
tocar com a minha a pessoa de outrem
é quase o máximo
a que eu posso resistir.”

(Leaves of Grass - fragmentos, Tradução de Geir Campos)

Canções da Experiência - William Blake


Um amanhecer no inverno do sul...


"O Ontem, o hoje, o amanhã, ora vos digo.
Eis que ouvi o anunciado
Pelo Verbo Sagrado,
Que caminhou pelo pomar antigo,

No orvalho da noite a chorar,
e a convocar de volta a alma perdida;
Que pode controlar
Até o pólo estelar,
E também renovar a luz caída!

Retorna, oh, Terra, vem agora!
Deixa a relva orvalhada em que tu dormes;
A noite vai-se embora.
E já desponta a aurora
Das massas sonolentas e disformes.

Não, não queiras mais te afastar.
Porque alguém como tu se afastaria?
Todo o chão estelar,
Toda a costa do mar,
Hão de ser teus até que rompa o dia."

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Coração Ateu - Maria Bethânia




"O meu coração ateu quase acreditou
Na tua mão que não passou de um leve adeus
Breve pássaro pousado em minha mão
Bateu asas e voou

Meu coração por certo tempo passeou
Na madrugada procurando um jardim
Flor amarela, flor de uma longa espera
Logo meu coração ateu

Se falo em mim e não em ti
É que nesse momento já me despedi
Meu coração ateu não chora e não lembra
Parte e vai-se embora."


(Composição: Sueli Costa)


domingo, 1 de julho de 2012

Poema XXXI - Paulo Leminski



"Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima."

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Indivisíveis - Mario Quintana


“O meu primeiro amor sentávamos numa pedra
Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas,
Isto é, que a gente grande achava bobas
Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.

Crianças...
Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
A não ser o azul imenso dos olhos dela,
olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
Nem no cachorro e no gato da casa,
Que apenas tinham a mesma fidelidade sem compromisso
E a mesma animal – ou celestial – inocência,
Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:
Não, não importava as coisas bobas que disséssemos.
Éramos um desejo de estar perto, tão perto
Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,
Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia
Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a vida...” 

sábado, 7 de abril de 2012

Ausência - Carlos Drummond de Andrade


"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."