(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)
“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.
Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”
(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
A casa de hóspedes - Rumi
"O
ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.
A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.
Receba
e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que
violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim
trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te
limpando
para um novo prazer.
O
pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta
rindo.
Agradeça
a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do
além."
quarta-feira, 22 de julho de 2020
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
As Vozes Eternas - William Yeats
(Créditos: Fernando Mainar, Porto Alegre, RS)
"Oh, doces e perenes vozes, permaneçam;
Vão até aos guardiões das hostes celestiais
E os ordene que vagueiem obedecendo à Tua vontade,
Chamas sob chamas, até o tempo deixar de existir;
Não tem você ouvido que nossos corações estão cansados,
Que você tem chamado por eles nos pássaros,
no vento sobre as colinas,
Em balançantes galhos nas árvores,
nas marés pela beira-mar?
Oh, doces e perenes vozes, permaneçam."
"Oh, doces e perenes vozes, permaneçam;
Vão até aos guardiões das hostes celestiais
E os ordene que vagueiem obedecendo à Tua vontade,
Chamas sob chamas, até o tempo deixar de existir;
Não tem você ouvido que nossos corações estão cansados,
Que você tem chamado por eles nos pássaros,
no vento sobre as colinas,
Em balançantes galhos nas árvores,
nas marés pela beira-mar?
Oh, doces e perenes vozes, permaneçam."
Ninguém me habita -Thiago de Mello
“Ninguém me habita.
A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o
mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para
que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me
habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiuras que me fascinam,
belezas
que me endoidecem.”
domingo, 26 de fevereiro de 2017
Encontro de almas - Jalal ud-Din Rumi
(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time. Abbeville Press, 2014)
“Vem,
Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos
olhos e ouvidos.
Sem exibir os dentes,
sorri comigo,
como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos,
sem língua sem lábios.
Sem abrir a boca,
contemo-nos
todos os segredos do mundo,
como faria o intelecto divino.
Fujamos dos incrédulos
que só são capazes de entender
se escutam palavras e veem rostos.
Ninguém fala para si
mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos
desse outro modo.
Como podes dizer à tua mão: ‘toca’,
se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.
Os
pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a
boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o
destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso
mostrar -te.”
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Dá-me tua mão... - Clarice Lispector
"Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi
a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que
existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de
mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas
notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um
intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
-
nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério
e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração
contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de
silêncio.”
A Lucidez Perigosa - Clarice Lispector
"Estou
sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém."
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém."
segunda-feira, 6 de junho de 2016
A Carlos Drummond de Andrade - João Cabral de Melo Neto
“Não há
guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é
surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que
tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro
pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia
devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há
guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.”
domingo, 13 de março de 2016
Rubaiyat - Omar Khayyam
(São Lourenço-RS, 17/02/16)
"Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.
Volte a afirmar que é a cinza o fogo,
A carne o pó, o rio o fugidio
Reflexo de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos esvai logo.
Volte a afirmar que o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa e que, à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento.
Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta uma única vez no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.
Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como transforma no temporão
Azul o teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de procurar-te em vão.
Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.
Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos."
(Jorge Luis Borges, “Elogio a Sombra”, 1969)
"Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.
Volte a afirmar que é a cinza o fogo,
A carne o pó, o rio o fugidio
Reflexo de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos esvai logo.
Volte a afirmar que o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa e que, à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento.
Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta uma única vez no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.
Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como transforma no temporão
Azul o teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de procurar-te em vão.
Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.
Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos."
(Jorge Luis Borges, “Elogio a Sombra”, 1969)
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
A flor e a náusea - Carlos Drummond de Andrade
“Preso à minha
classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de
fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta
pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os
muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e
códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas.
Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.
Vomitar este
tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido,
sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os
homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e
soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como
perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei
belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração
diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em
mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o
melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança
mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes,
ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude
a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem
os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se
percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos
livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da
capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão
nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias
avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em
pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o
nojo e o ódio.”
sábado, 10 de outubro de 2015
Ain't No Mountain High Enough - Marvin Gaye
Vídeo da música cantada por Susan Sarandon (em excelente performance) no filme "Stepmom" (Lado a Lado), que conta ainda com a participação de Julia Roberts.
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Músicas - Ain't no mountain high enough
domingo, 20 de setembro de 2015
Encantação da Primavera - Mario Quintana
"Brotam brotinhos na
tarde feita
Só de suspiros:
O amor é um vírus...
Apenas o general de bronze continua de bronze!
O vento desrespeita todos os sinais do tráfego.
Velhinhos de gravata borboleta
Sobem e descem como autogiros.
O guarda de trânsito virou catavento.
As mulheres são de todas as cores como esses
manequins expostos nas vitrinas,
E onde é que estão, me conta, as tuas esperanças
mortas?!
Lá vão elas – tão lindas – vestidas de verde
Como Ofélias levadas pelos rios em fora
Enquanto eu nem me atrevo a olhar para o alto:
repara se não é
O Espírito Santo que vem descendo em lento voo
E até ele, até Ele, deve estar assim, – todo irisado
Como os olhos das crianças, como as maravilhosas
bolinhas-de-gude!"
Só de suspiros:
O amor é um vírus...
Apenas o general de bronze continua de bronze!
O vento desrespeita todos os sinais do tráfego.
Velhinhos de gravata borboleta
Sobem e descem como autogiros.
O guarda de trânsito virou catavento.
As mulheres são de todas as cores como esses
manequins expostos nas vitrinas,
E onde é que estão, me conta, as tuas esperanças
mortas?!
Lá vão elas – tão lindas – vestidas de verde
Como Ofélias levadas pelos rios em fora
Enquanto eu nem me atrevo a olhar para o alto:
repara se não é
O Espírito Santo que vem descendo em lento voo
E até ele, até Ele, deve estar assim, – todo irisado
Como os olhos das crianças, como as maravilhosas
bolinhas-de-gude!"
domingo, 2 de agosto de 2015
Song of myself - Walt Whitman (fragmento)
“[...] Parto com o ar...
Sacudo minha neve branca ao sol que foge,
Desfaço minha carne em
redemoinhos de espuma,
Entrego-me ao pó para crescer nas ervas que
amo.
Se queres ver-me novamente procura-me
Sob teus sapatos.
Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Não obstante
serei para ti boa saúde,
E filtrarei e comporei teu sangue.
E se
não conseguires encontrar-me, não desanimes
O que não está numa
parte está noutra,
Nalgum lugar estarei a tua espera.”
(Tradução de Monteiro Lobato)
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Velhas árvores - Olavo Bilac
"Estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...
O homem, a fera, e o insecto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.
Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:
Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!"
Marcadores:
Músicas - Fratello Sole Sorella Luna,
Olavo Bilac
sábado, 4 de julho de 2015
Noturno - Mario Quintana
”Não sei por que, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca...
Eu penso em ti, em Deus, nas voltas inumeráveis que fazem os caminhos...
Em Deus, em ti, de novo...
Tua ternura tão simples...
Eu queria, não sei por que, sair correndo descalço pela noite imensa
E o vento da madrugada me encontraria morto junto de um arroio,
Com os cabelos e a fronte mergulhados na água límpida...
Mergulhados na água límpida, cantante e fresca de um arroio!”
(In: Aprendiz de Feiticeiro, 1950)
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