(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)


“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho
da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”

(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Salmo aos Inimigos - Affonso Romano de Sant'Anna


"Quando jovem
lendo os salmos de David
não entendia por que o rei-poeta
gastava espaço em suas preces
pedindo proteção contra inimigos.
Não sendo rei de nada, digo: Senhor!
- sem permitir que em sua fúria me destruam -
preservai meus inimigos.
Eles me ensinam
o que em mim devo evitar.
Dizem-me coisas
que não dizem os que me amam
por muito amar.
Dai-me novos inimigos, Senhor!
pois para cada um que me intercepta os passos
sempre amigos novos
me abrem os braços
e em cada inimigo descubro
embutido
e pelo avesso
um amigo
trazendo no punhal
guirlandas que nem mereço." 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Quando entrar setembro...














Mais um inverno chegando ao fim e, com ele, o período de hibernação. Agora, com a proximidade da primavera, impossível não sentir saudades do jardim da Dona Eva. A beleza em forma de simplicidade.



sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Do inquieto oceano da multidão - Walt Whitman




“Do inquieto oceano da multidão
veio a mim uma gota gentilmente
suspirando:


- Eu te amo a longo tempo
fiz uma extensa caminhada apenas
para te olhar, tocar-te,
pois não podia morrer
sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.


- Agora nos encontramos e olhamos,
estamos salvos,
retorne em paz ao oceano, meu amor,
não estamos assim tão separados,
olhe a imensa curvatura,
a coesão de tudo tão perfeito!
Quanto a mim e a você,
separa-nos o mar irresistível
levando-nos algum tempo afastados,
embora não possa afastar-nos sempre:
- não fique impaciente – um breve espaço -
e fique certa de que eu saúdo o ar,
a terra e o oceano,
todos os dias ao pôr-do-sol
por sua amada causa, meu amor.”



(Leaves of Grass - fragmento, Tradução de Geir Campos)


sexta-feira, 25 de abril de 2014






(Ponta Negra, Natal. Fev/2014)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Poema Nº XVII - Pablo Neruda




"
Pensando, enredando sombras nesta profunda solidão.
Também tu andas longe, ah mais longe que ninguém.
Pensando, soltando pássaros, desvanecendo imagens,
enterrando lâmpadas.

Campanário de brumas, que longe, lá no alto!
Afogando lamentos, moendo esperanças sombrias,
moleiro taciturno,
de bruços te vem a noite, longe da cidade.

A tua presença é alheia, estranha a mim como uma coisa.
Penso, caminho longamente, a minha vida antes de ti.
Vida antes de ninguém, minha áspera vida.

O grito frente ao mar, por entre as pedras,
correndo livre, louco, no bafejo do mar.
A fúria triste, o grito, a solidão do mar.

Desbocado, violento, estirado para o céu.
Tu, mulher, que eras ali, que sulco, que vareta
desse leque imenso? Estavas longe como agora.
Incêndio no bosque! Arde em cruzes azuis.

Arde, arde, chameja, chispa em árvores de luz.
Despenha-se, crepita. Incêndio. Incêndio.
E a minha alma dança ferida por aparas de fogo.
Quem chama? Que silêncio povoado de ecos?

Hora da nostalgia, hora da alegria, hora da solidão,
hora minha entre todas!
Ronca em que o vento passa cantando.
Tanta paixão de pranto, agarrada ao meu corpo.

Sacudir de todas as raízes,
assalto de todas as ondas!
Rodava, alegre, triste, interminável, a minha alma.

Pensando, enterrando lâmpadas nesta profunda solidão.
Mas quem és tu, quem és?
"

domingo, 15 de dezembro de 2013

Ao Mistral (Canção para dançar) - Friedrich Wilhelm Nietzsche





"Vento mistral, caçador de nuvens,
Matador de tristezas, varredor dos céus,
Como te amo, ó vento que ruge!
Não somos os dois primícias
De um só ventre, predestinados
A um só destino eternamente?


Aqui, sobre lisos caminhos nas rochas
Corro dançando ao teu encontro,
Correndo quando assovias e cantas:
Tu que sem navio e sem remo,
O mais livre irmão da liberdade,
Saltas por sobre mares bravios.


Mal acordara, ouvi teu chamado,
Precipitei-me para as falésias,
Para a dourada muralha junto ao mar.
Salve! Como claras, diamantinas
Correntes já vinhas, vitorioso,
Do lado dos montes,


Pelas planuras do céu
Vi os teus corcéis galoparem,
Vi o carro a te elevar,
Vi mesmo a tua mão avançar
Quando, sobre o dorso dos cavalos,
Como um raio brandia o açoite.— 


Do carro te vi saltar
A fim de mais veloz te arrojares,
Como que abreviado em flecha te vi
Cair verticalmente no fundo—
Como um raio de ouro atravessando
As rosas da primeira aurora.


Dança agora sobre mil dorsos,
Dorsos de ondas, malícias de ondas—
Salve quem novas danças cria!
Dancemos de mil maneiras,
Livre— seja chamada a nossa arte
E gaia— a nossa ciência!


De cada flor arranquemos
Um botão para a nossa glória
E duas folhas para a coroa!
Dancemos como trovadores
Entre os santos e as meretrizes
Entre Deus e o mundo inteiro!


Quem com os ventos não pode dançar
Quem precisa em ataduras se envolver,
Enfaixar-se como um velho trôpego,
Quem age como os hipócritas,
Patetas da honra e falsos da virtude,
Ponha-se fora do nosso paraíso!


Agitemos as poeiras das estradas
Nos narizes dos homens doentes,
Atemorizemos todo o bando dos enfermos!
Livremos a costa inteira
Do alento dos peitos ressequidos,
Dos olhares sem ânimo!


Expulsemos quem turva o céu,
Enegrece o mundo e afasta as nuvens,
Tornemos mais claro o reino dos céus!
Ouça-se o nosso rugido... Ó espírito
De todos os espíritos, junto contigo
Ruge a minha felicidade como uma tempestade.


— E para eternizar a memória
De tal felicidade, toma teu legado,
Leva contigo esta coroa para cima!
Lança-a mais alto e mais longe e,
Escalando impetuoso a escada celeste,
Pendura-a— nas estrelas!"


 (In: A Gaia Ciência, tradução de Paulo César de Souza)



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Resposta ao Tempo - Nana Caymmi



"Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei

Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei

E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro sozinhos

Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer
No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer" 


(para a Pérola, que me apresentou a esta linda canção)