(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)


“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho
da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”

(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)


segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Roxo - Adélia Prado


“Roxo aperta.
Roxo é travoso e estreito.
Roxo é a cordis, vexatório,
uma doidura pra amanhecer.
A paixão de Jesus é roxa e branca,
pertinho da alegria.
Roxo é travoso, vai madurecer.
Roxo é bonito e eu gosto.
Gosta dele o amarelo.
O céu roxeia de manhã e de tarde,
uma rosa vermelha envelhecendo.
Cavalgo caçando o roxo,
lembrança triste, bonina.
Campeio amor pra roxeamar paixonada,
o roxo por gosto e sina.”

(In: Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2006, p.31)

Para cantar com o Saltério – Adélia Prado



"Te espero desde o acre mel de marimbondos da minha juventude.
Desde quando falei, vou ser cruzado, acompanhar bandeiras,
ser Maria Bonita no bando de Lampião, Anita ou Joana,
desde as brutalidades da minha fé sem dúvidas.
Te espero e não me canso, desde, até agora e para sempre,
amado que virá para pôr sua mão na minha testa
e inventar com sua boca de verdade
o meu nome para mim"


(In: Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2006, p.98)


Dois Vocativos - Adélia Prado


“A maravilha dá de três cores:
branca, lilás e amarela,
seu outro nome é bonina.
Eu sou de três jeitos:
alegre, triste e mofina,
mas meu outro nome eu não sei.
Ò mistério profundo!
Ò amor!”



(In: O coração disparado. Rio de Janeiro: Record, 2006, p.19)


domingo, 30 de dezembro de 2007

Poema 25 (Metal Rosicler) - Cecília Meireles


Com sua agulha sonora
borda o pássaro o cipreste:
rosa ruiva da aurora,
folha celeste.

E com tesoura sonora
termina o bordado aéreo.
Silêncio. E agora
parte para o mistério.

A ruiva rosa sonora
com sua folha celeste
imperecível mora
no cipreste.

(In: Antologia Poética. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001.)

domingo, 18 de novembro de 2007

Cárcere voluntário


Perguntam-me porque não escrevo versos

Ora, um poema lido é um poema completo

Seu corpo - a linguagem

Sua alma - o conteúdo.

Meu espírito fragmenta-se nessa leitura e

Oferecer-te versos meus seria como

Presentear-te um cadáver

Somente a inércia e a frieza da carne.

O corpo do poema alheio é toda a geografia

De que preciso para expandir meus limites

Enquanto minha alma dele permanecer cativa.


Ruiva da Noite

18/11/07

Teimosamente


Certas manhãs corre em minha face

uma lágrima que não é minha

Tento me concentrar na treva que se dissipa

Na névoa que insiste em esconder o horizonte

Bendigo as melodias e aromas da manhã...

Ensaiando um sorriso

Mas meu coração

Se divide entre a euforia da dança - magia

E os acordes da agonia...

Cismo, pasmo, faço cálculos

Refaço caminhos, percorro distâncias

Em segundos

Enfim concluo que as sombras

me confundem, quando o dia amanhece

Restabeleço a paz e a serenidade

Enquanto o sol caminha

A passos lentos, na minha direção

Desfaz-se o nevoeiro

A treva recua

Meu coração se alegra

Ainda uma lágrima solitária

insiste em se fazer notar...


Ruiva da Noite

14/09/07

sábado, 3 de novembro de 2007

Noite - Sophia de Mello Breyner Andresen


Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que julguei perdida.

Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,

Rios de palidez que escorre
Sobre os campos a lua cheia,

Ansioso subir de cada voz
Que na noite clara se desfaz e morre.

Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem

Tristeza das cigarras a cantar.

Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.