(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)
“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.
Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”
(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
As Vozes Eternas - William Yeats
(Créditos: Fernando Mainar, Porto Alegre, RS)
"Oh, doces e perenes vozes, permaneçam;
Vão até aos guardiões das hostes celestiais
E os ordene que vagueiem obedecendo à Tua vontade,
Chamas sob chamas, até o tempo deixar de existir;
Não tem você ouvido que nossos corações estão cansados,
Que você tem chamado por eles nos pássaros,
no vento sobre as colinas,
Em balançantes galhos nas árvores,
nas marés pela beira-mar?
Oh, doces e perenes vozes, permaneçam."
"Oh, doces e perenes vozes, permaneçam;
Vão até aos guardiões das hostes celestiais
E os ordene que vagueiem obedecendo à Tua vontade,
Chamas sob chamas, até o tempo deixar de existir;
Não tem você ouvido que nossos corações estão cansados,
Que você tem chamado por eles nos pássaros,
no vento sobre as colinas,
Em balançantes galhos nas árvores,
nas marés pela beira-mar?
Oh, doces e perenes vozes, permaneçam."
Ninguém me habita -Thiago de Mello
“Ninguém me habita.
A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o
mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para
que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me
habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiuras que me fascinam,
belezas
que me endoidecem.”
domingo, 26 de fevereiro de 2017
Encontro de almas - Jalal ud-Din Rumi
(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time. Abbeville Press, 2014)
“Vem,
Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos
olhos e ouvidos.
Sem exibir os dentes,
sorri comigo,
como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos,
sem língua sem lábios.
Sem abrir a boca,
contemo-nos
todos os segredos do mundo,
como faria o intelecto divino.
Fujamos dos incrédulos
que só são capazes de entender
se escutam palavras e veem rostos.
Ninguém fala para si
mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos
desse outro modo.
Como podes dizer à tua mão: ‘toca’,
se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.
Os
pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a
boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o
destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso
mostrar -te.”
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Dá-me tua mão... - Clarice Lispector
"Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi
a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que
existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de
mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas
notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um
intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
-
nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério
e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração
contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de
silêncio.”
A Lucidez Perigosa - Clarice Lispector
"Estou
sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém."
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém."
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