(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)
“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.
Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”
(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)
quinta-feira, 7 de julho de 2016
segunda-feira, 6 de junho de 2016
A Carlos Drummond de Andrade - João Cabral de Melo Neto
“Não há
guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é
surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que
tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro
pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia
devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há
guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.”
domingo, 13 de março de 2016
Rubaiyat - Omar Khayyam
(São Lourenço-RS, 17/02/16)
"Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.
Volte a afirmar que é a cinza o fogo,
A carne o pó, o rio o fugidio
Reflexo de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos esvai logo.
Volte a afirmar que o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa e que, à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento.
Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta uma única vez no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.
Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como transforma no temporão
Azul o teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de procurar-te em vão.
Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.
Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos."
(Jorge Luis Borges, “Elogio a Sombra”, 1969)
"Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.
Volte a afirmar que é a cinza o fogo,
A carne o pó, o rio o fugidio
Reflexo de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos esvai logo.
Volte a afirmar que o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa e que, à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento.
Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta uma única vez no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.
Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como transforma no temporão
Azul o teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de procurar-te em vão.
Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.
Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos."
(Jorge Luis Borges, “Elogio a Sombra”, 1969)
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
A flor e a náusea - Carlos Drummond de Andrade
“Preso à minha
classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de
fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta
pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os
muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e
códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas.
Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.
Vomitar este
tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido,
sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os
homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e
soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como
perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei
belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração
diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em
mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o
melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança
mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes,
ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude
a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem
os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se
percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos
livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da
capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão
nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias
avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em
pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o
nojo e o ódio.”
sábado, 10 de outubro de 2015
Ain't No Mountain High Enough - Marvin Gaye
Vídeo da música cantada por Susan Sarandon (em excelente performance) no filme "Stepmom" (Lado a Lado), que conta ainda com a participação de Julia Roberts.
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Músicas - Ain't no mountain high enough
domingo, 20 de setembro de 2015
Encantação da Primavera - Mario Quintana
"Brotam brotinhos na
tarde feita
Só de suspiros:
O amor é um vírus...
Apenas o general de bronze continua de bronze!
O vento desrespeita todos os sinais do tráfego.
Velhinhos de gravata borboleta
Sobem e descem como autogiros.
O guarda de trânsito virou catavento.
As mulheres são de todas as cores como esses
manequins expostos nas vitrinas,
E onde é que estão, me conta, as tuas esperanças
mortas?!
Lá vão elas – tão lindas – vestidas de verde
Como Ofélias levadas pelos rios em fora
Enquanto eu nem me atrevo a olhar para o alto:
repara se não é
O Espírito Santo que vem descendo em lento voo
E até ele, até Ele, deve estar assim, – todo irisado
Como os olhos das crianças, como as maravilhosas
bolinhas-de-gude!"
Só de suspiros:
O amor é um vírus...
Apenas o general de bronze continua de bronze!
O vento desrespeita todos os sinais do tráfego.
Velhinhos de gravata borboleta
Sobem e descem como autogiros.
O guarda de trânsito virou catavento.
As mulheres são de todas as cores como esses
manequins expostos nas vitrinas,
E onde é que estão, me conta, as tuas esperanças
mortas?!
Lá vão elas – tão lindas – vestidas de verde
Como Ofélias levadas pelos rios em fora
Enquanto eu nem me atrevo a olhar para o alto:
repara se não é
O Espírito Santo que vem descendo em lento voo
E até ele, até Ele, deve estar assim, – todo irisado
Como os olhos das crianças, como as maravilhosas
bolinhas-de-gude!"
domingo, 2 de agosto de 2015
Song of myself - Walt Whitman (fragmento)
“[...] Parto com o ar...
Sacudo minha neve branca ao sol que foge,
Desfaço minha carne em
redemoinhos de espuma,
Entrego-me ao pó para crescer nas ervas que
amo.
Se queres ver-me novamente procura-me
Sob teus sapatos.
Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Não obstante
serei para ti boa saúde,
E filtrarei e comporei teu sangue.
E se
não conseguires encontrar-me, não desanimes
O que não está numa
parte está noutra,
Nalgum lugar estarei a tua espera.”
(Tradução de Monteiro Lobato)
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