(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)


“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho
da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”

(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Poema Nº XVII - Pablo Neruda




"
Pensando, enredando sombras nesta profunda solidão.
Também tu andas longe, ah mais longe que ninguém.
Pensando, soltando pássaros, desvanecendo imagens,
enterrando lâmpadas.

Campanário de brumas, que longe, lá no alto!
Afogando lamentos, moendo esperanças sombrias,
moleiro taciturno,
de bruços te vem a noite, longe da cidade.

A tua presença é alheia, estranha a mim como uma coisa.
Penso, caminho longamente, a minha vida antes de ti.
Vida antes de ninguém, minha áspera vida.

O grito frente ao mar, por entre as pedras,
correndo livre, louco, no bafejo do mar.
A fúria triste, o grito, a solidão do mar.

Desbocado, violento, estirado para o céu.
Tu, mulher, que eras ali, que sulco, que vareta
desse leque imenso? Estavas longe como agora.
Incêndio no bosque! Arde em cruzes azuis.

Arde, arde, chameja, chispa em árvores de luz.
Despenha-se, crepita. Incêndio. Incêndio.
E a minha alma dança ferida por aparas de fogo.
Quem chama? Que silêncio povoado de ecos?

Hora da nostalgia, hora da alegria, hora da solidão,
hora minha entre todas!
Ronca em que o vento passa cantando.
Tanta paixão de pranto, agarrada ao meu corpo.

Sacudir de todas as raízes,
assalto de todas as ondas!
Rodava, alegre, triste, interminável, a minha alma.

Pensando, enterrando lâmpadas nesta profunda solidão.
Mas quem és tu, quem és?
"

domingo, 15 de dezembro de 2013

Ao Mistral (Canção para dançar) - Friedrich Wilhelm Nietzsche





"Vento mistral, caçador de nuvens,
Matador de tristezas, varredor dos céus,
Como te amo, ó vento que ruge!
Não somos os dois primícias
De um só ventre, predestinados
A um só destino eternamente?


Aqui, sobre lisos caminhos nas rochas
Corro dançando ao teu encontro,
Correndo quando assovias e cantas:
Tu que sem navio e sem remo,
O mais livre irmão da liberdade,
Saltas por sobre mares bravios.


Mal acordara, ouvi teu chamado,
Precipitei-me para as falésias,
Para a dourada muralha junto ao mar.
Salve! Como claras, diamantinas
Correntes já vinhas, vitorioso,
Do lado dos montes,


Pelas planuras do céu
Vi os teus corcéis galoparem,
Vi o carro a te elevar,
Vi mesmo a tua mão avançar
Quando, sobre o dorso dos cavalos,
Como um raio brandia o açoite.— 


Do carro te vi saltar
A fim de mais veloz te arrojares,
Como que abreviado em flecha te vi
Cair verticalmente no fundo—
Como um raio de ouro atravessando
As rosas da primeira aurora.


Dança agora sobre mil dorsos,
Dorsos de ondas, malícias de ondas—
Salve quem novas danças cria!
Dancemos de mil maneiras,
Livre— seja chamada a nossa arte
E gaia— a nossa ciência!


De cada flor arranquemos
Um botão para a nossa glória
E duas folhas para a coroa!
Dancemos como trovadores
Entre os santos e as meretrizes
Entre Deus e o mundo inteiro!


Quem com os ventos não pode dançar
Quem precisa em ataduras se envolver,
Enfaixar-se como um velho trôpego,
Quem age como os hipócritas,
Patetas da honra e falsos da virtude,
Ponha-se fora do nosso paraíso!


Agitemos as poeiras das estradas
Nos narizes dos homens doentes,
Atemorizemos todo o bando dos enfermos!
Livremos a costa inteira
Do alento dos peitos ressequidos,
Dos olhares sem ânimo!


Expulsemos quem turva o céu,
Enegrece o mundo e afasta as nuvens,
Tornemos mais claro o reino dos céus!
Ouça-se o nosso rugido... Ó espírito
De todos os espíritos, junto contigo
Ruge a minha felicidade como uma tempestade.


— E para eternizar a memória
De tal felicidade, toma teu legado,
Leva contigo esta coroa para cima!
Lança-a mais alto e mais longe e,
Escalando impetuoso a escada celeste,
Pendura-a— nas estrelas!"


 (In: A Gaia Ciência, tradução de Paulo César de Souza)



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Resposta ao Tempo - Nana Caymmi



"Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei

Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei

E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro sozinhos

Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer
No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer" 


(para a Pérola, que me apresentou a esta linda canção)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O avesso dos ponteiros - Ana Carolina





"Sempre chega a hora da solidão
Sempre chega a hora de arrumar o armário
Sempre chega a hora do poeta plêiade
Sempre chega a hora em que o camelo tem sede

O tempo passa e engraxa a gastura do sapato
Na pressa a gente não nota que a Lua muda de formato
Pessoas passam por mim pra pegar o metrô
Confundo a vida ser um longa-metragem
O diretor segue seu destino de cortar as cenas
E o velho vai ficando fraco esvaziando os frascos
E já não vai mais ao cinema

Tudo passa e eu ainda ando pensando em você
Tudo passa e eu ainda ando pensando em você

Penso quando você partiu
Assim... sem olhar pra trás
Como um navio que vai ao longe
E já nem se lembra do cais
Os carros na minha frente vão indo
E eu nunca sei pra onde
Será que é lá que você se esconde?

Tudo passa e eu ainda ando pensando em você
Tudo passa e eu ainda ando pensando em você

A idade aponta na falha dos cabelos
Outro mês aponta na folha do calendário
As senhoras vão trocando o vestuário
As meninas viram a página do diário

O tempo faz tudo valer a pena
E nem o erro é desperdício
Tudo cresce e o início
Deixa de ser início
E vai chegando ao meio
Aí começo a pensar que nada tem fim.." 




sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Porque te amo - Hilda Hilst




"Porque te amo
Deverias ao menos te deter
Um instante
Como as pessoas fazem
Quando veem a petúnia
Ou a chuva de granizo.

Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana

Não essa que te louva


A cada verso
Mas outra

Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.

Porque te amo, Dionísio,
é que me faço assim tão simultânea


Madura, adolescente

E por isso talvez
Te aborreças de mim"

Da noite - Hilda Hilst





"Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?

O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?"


(In: Do Desejo - Campinas, São Paulo: Pontes, 1992.)


Para você, FC, que me arrasta rumo ao caos e aos porões de minha alma.

sábado, 12 de outubro de 2013

A Fonte - Renato Russo






"Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além, não bebo dessa água
Chego ao lago da memória 
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
'Sou filho da Terra e do Céu!'
Dai-me de beber que tenho uma sede sem fim!
Olhe nos meus olhos
Sou o homem-tocha
Me tira essa vergonha
Me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio
Me livra desse medo
Olhe nos meus olhos
Sou o homem-tocha
E esta é uma canção de amor..."