(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)


“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho
da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”

(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)


domingo, 20 de abril de 2008

Coisas que eu sei - Danni Carlos


"Eu quero ficar perto
De tudo o que acho certo
Até o dia em que eu mudar de opinião
A minha experiência
Meu pacto com a ciência
Meu conhecimento é minha distração

Coisas que eu sei
Eu adivinho sem ninguém ter me contado
Coisas que eu sei
O meu rádio relógio mostra o tempo errado
Aperte o play
Eu gosto do meu quarto
Do meu desarrumado
Ninguém sabe mexer na minha confusão
É o meu ponto de vista
Não aceito turistas
Meu mundo ta fechado pra visitação

Coisas que eu sei
O medo mora perto das idéias loucas
Coisas que eu sei
Se eu for eu vou assim não vou trocar de roupa
É minha Lei

Eu corto os meus dobrados
Acerto os meus pecados
Ninguém pergunta mais depois que eu já paguei
Eu vejo o filme em pausas
Eu imagino casas
Depois eu já nem lembro do que eu desenhei

Coisas que eu sei
Não guardo mais agendas no meu celular
Coisas que eu sei
Eu compro aparelhos que eu não sei usar
Eu já comprei
Ás vezes dá preguiça
Na areia movediça
Quanto mais eu mexo mais afundo em mim
Eu moro num cenário
Do lado imaginário
Eu entro e saio sempre quando eu tô afim

Coisas que eu sei
As noites ficam claras no raiar do dia
Coisas que eu sei
São coisas que antes eu somente não sabia...

Agora eu sei..."
 
(Composição: Dudu Falcão) 
 
 

Tu eras também uma pequena folha... - Pablo Neruda




“Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.”

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Meu epitáfio - Cora Coralina


“Morta... serei árvore
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.

Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo de vida vegetal.

Não morre aquele que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.”

segunda-feira, 24 de março de 2008

O esforço - Fabrício Carpinejar



"O que se esforçou para viver não desaparece."

sexta-feira, 21 de março de 2008

A árvore - Fernanda de Castro


Na Primavera, a árvore
era um ninho de folhas palpitantes
como pequenas asas verdes.

No Estio,
cobria-se de flores, cada ramo
era um jardim suspenso.

Vinha depois o Outono. As flores mortas
eram leito de pássaros.
As folhas partiam, esvoaçando,
tal borboletas de oiro.

Por fim, o Inverno; em vez de folhas,
braços nus, troncos mortos,
desolada solidão.

Mas um dia...
Um dia a Primavera voltou
com suas folhas palpitantes
como pequenas asas verdes.

O Estio,
com as suas flores,
com os seus jardins suspensos.

O Outono, com seus pomos
e as borboletas de oiro
das suas folhas a dançar ao vento.

O Inverno com seus musgos,
seus descamados braços nus.

Mas a árvore
a bela árvore era sempre a mesma
na sua ilimitada confiança.

Foi então que aprendi,
da árvore, a lição:
A vida é uma longa paciência
e uma longa esperança.

Para Cris - Julio Cortázar


“Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas, chuva de asas,
e eu sem pão para dar, tão somente
deixo-os vir. Talvez
seja isto uma árvore,
ou quem sabe,
o amor.”

(Tradução Sidnei Schneider, 2007)

----------

Ahora escribo pájaros.
No los veo venir, no los elijo,
de golpe están ahí, son esto,
una bandada de palabras
posándose
una
a
una
en los alambres de la página,
chirriando, picoteando, lluvia de alas
y yo sin pan que darles, solamente
dejándolos venir. Tal vez
sea eso un árbol
o tal vez
el amor.

(Julio Cortázar, Cinco últimos poemas para Cris, Salvo el crepúsculo, 1984.)


Canções para a lua cheia



Impossível não sentir a magia desta noite

de lua plena

Quando o vento traz uma carícia à pele,

um arrepio

Será o outono chegando

Ou apenas o roçar das asas de um anjo?

"Yesterday, all my troubles seemed so far away..."

A trilha sonora perfeita

para o passeio da lua pelos meus olhos...

Como poderia sentir-me sozinha?

Como não esquecer todos os mortais

entraves e contingências?

Ao fundo, as águas cantantes de um "arroio guri"

fazem a segunda voz

para uma noite encantada...

"Unforgettable... it's incredible..."

Já não sei se mais ouço, vejo, ou sinto...

mas calo

diante de tamanha beleza

transcendência

Pureza

MágicaEssência.

"What a wonderful world..."


----------------------------------

(Ruiva da Noite, 21/03/2008)

Publicado no Recanto das Letras em 21/03/2008

Código do texto: T910925