(Beth Moon - Ancient Trees: Portraits Of Time, Abbeville Press, 2014)


“Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho
da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.”

(NERUDA, Pablo. O Caçador de raízes. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.)


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Atrás da máscara - Michel Eyquem de Montaigne


"Nós buscamos outras realidades porque não sabemos
como desfrutar da nossa; e saímos de dentro de nós mesmos
pelo desejo de saber como é o nosso interior."


Nada te faltará - Ana Carolina


""Pra onde vamos

As vans, carros e bicicletas?
Certezas avessas
Comércio de guerra
Legado de merda
Comércio de guerra
Legado de merda

Mais de um bilhão de chineses
Marchando sem deuses
E outros descalços
Fazendo sapatos
Pra nobres e ratos

Sobe do solo
A nuvem de óleo com cheiro
De enxofre queimado
Fudendo com os ares
E outras barbáries

Quero mudança total
Uma idéia genial
A ciência e o amor
A favor do futuro
Quero o claro no escuro

Peço paz aos filhos de Abraão
Quero Gandhi na melhor versão

E nada vai me faltar, e nada te faltará
E nada vai me faltar, e nada te faltará

Pra onde seguem os barcos?
Os homens, suas trilhas
Seus filhos e filhas
No pau da miséria?
Um pico na artéria

As mulheres pedintes perdidas
Que já quase loucas
Dividem o frio da noite
Com as drags
As mães e os "carregues"

Meninas sangrando na boca
E no meio das pernas
No meio da noite
Tomando cacete
Sem dente, sem leite

Quero respeito
Os humanos direitos
Fazendo pensar os pilares
De uma nova era
Que não seja quimera

Peço paz aos filhos de Abraão
Quero Gandhi na melhor versão

E nada vai me faltar, e nada te faltará
E nada vai me faltar, e nada te faltará"

(Composição: Ana Carolina e Antônio Villeroy)



domingo, 10 de fevereiro de 2008

Oitava Elegia - Rainer Maria Rilke



(dedicada a Rudolf Kassner)

"COM TODOS OS SEUS OLHOS, a criatura vê o Aberto. Nosso olhar, porém, foi revertido e como armadilha se oculta em torno do livre caminho.
O que está além, pressentimos apenas na expressão do animal; pois desde a infância desviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos, ah, esse espaço profundo que há na face do animal.
Isento de morte. Nós só vemos morte. O animal espontâneo ultrapassou seu fim; diante de si tem apenas Deus e quando se move é para a eternidade, como correm as fontes.
Ignoramos o que é contemplar um dia, somente um dia o espaço puro, onde, sem cessar, as flores desabrocham. Sempre o mundo, jamais o em-parte-alguma, sem nada: o puro, o inesperado que se respira, que se ‘sabe’ infinito, sem a avidez do desejo.
Uma criança aí se perde, às vezes, em silêncio, mas é despertada. Ou alguém que morre, nisso se transforma. Pois os que da morte se aproximam não mais a podem ver, fixando o infinito com o grande olhar do animal.
Os amantes – não estivesse o outro a ofuscar-lhe a visão – sentem a obscura presença e se espantam... Às vezes há um descerrar-se atrás do outro... Mas o outro, como superá-lo? E o mundo já retorna.
Para a criação sempre voltados, nela vemos apenas o reflexo da liberdade que obscurecemos. Há no entanto esses olhos calmos que o animal levanta, atravessando-nos com seu mudo olhar. A isto se chama destino: estar em face do mundo, eternamente em face.

Tivesse, como nós, consciência o animal tranqüilo – em outro sentido nos arrastaria; seu ritmo seria o nosso. Seu ser, porém, é infinito, inapreensível e sem olhar.
E ele tudo vê, puro e inconsciente de si, onde nós vemos futuro, em tudo se vê e salvo para sempre.
Há, entretanto, no animal quente e vigilante, a inquietude e a opressão de uma profunda nostalgia. Ele conhece a angústia que tantas vezes nos domina – a lembrança, como se esse para onde tendemos tivesse sido outrora mais fiel e de contato mais doce.

Tudo aqui é distância – lá era alento. Depois da primeira pátria, como parece a segunda incerta e sem abrigo! Bem-aventurada a ‘pequena’ criatura que sempre ‘permanece’ no seio que a criou; ó tu, mosca feliz, que saltas interiormente ainda mesmo nas núpcias: o ventre é tudo.
Olhai a quase-certeza do pássaro, que por sua origem pertence aos dois domínios, como se fosse a alma liberta de um etrusco que o espaço acolheu, mas com a imagem repousando a recobri-lo. E olhai a indecisão do que deve voar, expulso do seio. Espantado consigo mesmo fende o ar, taça partida. Assim risca o morcego, no seu vôo, a porcelana da tarde.

E nós: espectadores em tudo e sempre, voltados para tudo, nunca de fora.
Saciados, ordenamos. Mas tudo se desfaz. Novamente insistimos e nós mesmos passamos.

Quem nos desviou assim, para que tivéssemos um ar de despedida em tudo que fazemos? Como aquele que partindo se detém na última colina para contemplar o vale na distância – e ainda uma vez se volta, hesitante, e aguarda – assim vivemos nós, numa incessante despedida."


(In: Elegias de Duíno. Tradução e comentários de Dora Ferreira da Silva. São Paulo: Globo, 2001. Edição Bilíngüe)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Dez Chamamentos ao Amigo - Hilda Hilst



"Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta


Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento."


(In: Júbilo, memória, noviciado da paixão. Organização Alcir Pécora. São Paulo: Globo, 2001)




Reza para as quatro almas de Fernando Pessoa - Adélia Prado


“Da belíssima 'Ode à noite antiga'
resulta que eu entendo, limpo de esforço e vaidade
se nos fosse possível:
da oração verdadeira nasce a força.
Ninguém se cansa de bondade e avencas.
Os rebanhos guardados guardam o homem.
Todos que estamos vivos morreremos.
Não é pra entender que nós pensamos,
é para sermos perdoados.
Pai nosso, criador da noite, do sonho,
do meu poder sobre os bois,
eis-me, eis-me.”

Mulher Adormecida - Cecília Meireles


“Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo a vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,

arrancar-me à vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?”

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Roxo - Adélia Prado


“Roxo aperta.
Roxo é travoso e estreito.
Roxo é a cordis, vexatório,
uma doidura pra amanhecer.
A paixão de Jesus é roxa e branca,
pertinho da alegria.
Roxo é travoso, vai madurecer.
Roxo é bonito e eu gosto.
Gosta dele o amarelo.
O céu roxeia de manhã e de tarde,
uma rosa vermelha envelhecendo.
Cavalgo caçando o roxo,
lembrança triste, bonina.
Campeio amor pra roxeamar paixonada,
o roxo por gosto e sina.”

(In: Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2006, p.31)